LIFESTYLE: BATE-PAPO COM LULA RODRIGUES

Hi Buddies,

Tenho o imenso prazer em subir esta incrível entrevista que fiz por e-mail – quem o conhece, sabe que isso é raro – com o jornalista Lula Rodrigues. Um dos maiores experts em moda masculina no país – se não for o maior – me contou um pouco de sua história e imensa bagagem, que adquiriu neste fascinante e árduo universo chamado moda masculina. Lula é dono de um blog cheio de dicas e notícias sobre este tema – Moda Masculina – no Ela Digital, caderno online do jornal O Globo.

Abaixo, relatos, histórias e dicas desta pessoa que eu admiro há alguns anos, desde quando o conheci nos corredores da SPFW de outrora…

Enjoy!

Blog do Kadu – Qual a sua formação e quando começou sua carreira no universo da moda?

Lula Rodrigues – A minha formação é Graphic Design/Comunicação Visual. Conquistei o status de jornalista, depois de uma cobertura da New York Fashion Week, tendo ralado o bastante na redação do Globo, para assumir tal responsabilidade. No Caderno Ela, aprendi tudo, no melhor estilo old school (adoro e acredito): apuração, compromisso, ética e afins.

Antes do Ela, fui roteirista e arte-finalista de quadrinhos, designer gráfico, diretor de arte, grafiteiro – participei, junto com Alex Vallauri do evento “Como vai você, geração 80?” – no Parque Laje, em 1984, que me colocou em contato com a vanguarda da arte brasileira, da década seguinte. Enfim, toda a minha atuação sempre foi de referência visual.

Por volta de 1987/88, eu andava curioso para entender a moda factual do Globo e procurei a minha amiga Patricia Veiga, na época, Coordenadora de Moda do Ela. Assim, produzi a minha primeira matéria para o suplemento. Patricia é autora do livro “Moda em Jornal” de 2006 e atual editora de moda da Rede Globo.

Sugeri, e ela topou, uma pauta perigosa para quem está começando, algo bem aquariano e megalômano (eu mesmo – rsrsrs): uma capa, tendo como modelo, o coreógrafo americano David Parsons. Era a primeira vez que Parsons vinha ao Brasil, para dançar seu balé “Caught”, no Theatro Municipal do Rio. A matéria bombou e, com texto da Pat Veiga, foi a capa do Segundo Caderno.

Assim, literalmente, dancei: me apaixonei pelo ofício. Havia uma vaga para produtor de moda. Desde então, ganho o meu “pão na chapa”, trabalhando, há quase 3 décadas, no mundinho fashion, mas tendo começado desde os primeiros degraus: produção (hoje styling), coordenação de produção e finalmente, coordenador de moda. Este é o título de editor de moda no jornal O Globo.

BK – Sempre trabalhou com moda masculina?

LR – A moda dos homens sempre esteve em meus pensamentos e total interesse. Ganhei o meu primeiro manual de estilo, o livro “Clothes and the Man”, do Alan Flusser, no final dos 80’s. A minha primeira produção, como contei, foi masculina. Sou homem, fica mais fácil de entender que nós temos nossos “caprichos” e que são diferentes das mulheres. Mas estou realmente focado neste segmento há mais ou menos uma década. Adoro a moda feminina e estudei e ralei muito, pois 70% de minha carreira teve este tema como base. Fui diretor de arte e editor de conteúdo do GNT Fashion, o que me deu muita segurança trabalhando com quem conhece o negócio da moda feminina de perto e por dentro, Betty Lago. Pat Veiga e Betty Lago, são as minhas duas primeiras “gurus” das imagens/conteúdo de moda, tanto impressa quanto na TV. Sou eternamente grato à ambas.

BK – Você acompanha a moda masculina há alguns anos. O que mais te impressionou neste tempo?

LR – Tenho muita alegria de completar 60 anos na era da informação em real time. Já mandei matéria por fax, de Nova York, era um sofrimento, a conexão demorava. Dos trabalhos freela, no exterior cujos briefings vinham via fax, nos 90’s, hoje converso umas 4 vezes por dia, com minha colaboradora em Londres, via Skype e What’sApp.

Há 2 anos o meu blog transmite ao vivo o desfile da Burberry, em Milão. Acompanhei a transição da moda para a era digital que hoje, propulsiona o universo masculino, através das mídias sociais, assim como as vendas por e-commerce, e as coberturas via web. O meu Tumblr, página no Instagram, Facebook e Twitter, dão uma preview – quase em tempo real – do que será publicado no meu blog, agora no site Ela Digital.

Mas antes disso tudo, presenciei Hedi Slimane vestir o mundo com a calça skinny, Gaultier com a saia. Vi nascer a MTV e as style magazines (ID, The Face, Blitz, Arena – tenho todas guardadas), em 1980, eu tinha 27 anos. Vi nascer a primeira coleção masculina da Prada, a invasão de Paris pelos japoneses e a chegada dos “6 de Antuérpia” – Escola Belga – em Londres. Recebi via NY, o catálogo da primeira coleção Comme des Garçons Homme Plus (1984). Colecionei e tenho a revista Six – Comme des Garçons, assim como o primeiro número numerado à mão 444, da Visionaire.

Vi Giuliano Fujiwara, subir bainhas nos anos 1980 e testemunhei os tornozelos expostos por Thom Browne, assim como vimos – todos – a primeira dama americana apostando nele, na reeleicão de Obama.

Em 1990, em Milão, fui à ultima exposição sobre artistas peruanos, no “Spazio Romeo Gigli”, no mesmíssimo lugar onde hoje é “10 Corso Como”. Na mesmíssima temporada, tive o prazer de saber de todos os gossips da Milano Uomo Collezioni, assim como o babado entre Carla Sozzani e Gigli, numa das pouquíssimas mesas da Latteria San Marco, na cidade onde Armani era rei e Versace, Imperador. Fui como convidado à “7th on Sale – Vogue and CFDA”, em Nova York, no dia 29 de novembro de 1989, uma quinta-feira (lembro de tudo) e tenho orgulho por ter contribuído com US$ 300 (em camisetas) no montante de US$ 2,1 milhões arrecadados durante 4 dias, para o Fundo de Aids de Nova York.

Enfim, vi nascer e crescer o Ale Herchcovitch, o R Groove, o João Pimenta, a Reserva, OEstudio, o Lindenberg Fernandes, o Casa de Criadores, o Dragão Fashion, o Rio Moda Hype, a Osklen, acompanhei os “jinzeiros” se transformaram em jeans deluxe. Frequentei Georges Henri, Gregório Faganello e Mr Wonderful. Vi a chegada da Fiorucci da Gloria Kalil, no Rio. Até hoje tenho a tee com os anjinhos punks

Wow!! Muita coisa, mas sempre de olho no masculino. Enfim, ganhei um jeans couture Versace, do próprio, com quem tive o prazer de conversar, em 1990, no seu atelier em Milão, sobre a linha de alta-costura que ele estava criando para o Prince que estava na cidade. Ele já tinha feito para o Elton John. #saudades!!!

BK – O que é moda pra você?

LR – Mais do que o sobe e desce de bainhas – para homens ou mulheres – acredito que a moda, seja uma das únicas palavras, cujo conceito não dá para ser descrito em 140 caracteres. Temos uma vida para estudá-la, tentar entendê-la. Quando achamos que conseguimos, ela nos trapaceia, surgem novos estudos, novos conceitos e livros, novos autores respeitáveis, novos olhares. Tentar saber o que é moda, é o que venho fazendo nos ultimos 20 anos. Há uns 8 anos estudo a História dos Costumes. De 2010 para cá, chegaram às livrarias, mais de 20 livros – de qualidade – sobre a moda masculina.

Sou caipira, fui criado em fazenda de café, só vi televisão, comecei a usar óculos e tomei banho de mar aos 14 anos. Tudo de uma vez só. Mas, nunca tive Autorama, nem Monareta. Mas os livros e revistas, estes sim, me vingo – eu tenho todos rsrsrsr.

BK – Qual a sua opinião sobre a moda masculina no Brasil e no mundo?

LR – Aqui, temos a grande sorte de começarmos a pensar numa “identidade de moda brasileira”, em tempos globalizados. A partir de Herchcovitch – o nosso melhor exemplo respeitando todos os outros – nos damos conta de que para falarmos de raízes, necessariamente não precisamos botar o bumba-meu-boi na passarela. No quesito brasilidade com B maiúsculo, Ronaldo Fraga é nosso poeta. Esta entrada da segunda década do século XXI confirma que a moda do homem é o grande filão a ser estudado, discutido e, infelizmente, banalizado.

Acredito na seriedade de propostas de mercado como a do site Mr Porter. Meus grandes ídolos atuais, são Jeremy Langmead – que transformou um website de e-commerce numa grande fonte de ótimas referências, verdadeiro manual de estilo para homens – e Dylan Jones, editor da GQ UK, que acompanho desde os seus tempos na ID, The Face, ou seja, os 80’s

BK – Qual coleção masculina te impressionou nos últimos tempos?

LR – A primeira e a última, “mens signature collection Galliano”, sob a batuta de John, o próprio. A partir daí, a grife é mais uma que faz parte de um conglomerado. Ele já tinha vendido a marca, mas a sua genialidade estava acima. Um dia pirou. Prefiro entender assim, já que acompanhei nos tempos de GNT Fashion, como ele ralou e o quanto Anna Wintour o apoiou. Let’s turn the page. São poucos os que tem o privilégio de uma Rei Kawakubo que tem um Junya Watanabe na vida.

BK – Dos desfiles internacionais que estão acontecendo, qual o mais interessante até agora?

LR – Querido Kadu, embora filho de pai russo, tenho coração de mãe siciliana, para o masculino. Qualquer espacinho me que dão boto a boca no mundo, portanto nunca vai haver apenas 1. Acabo de acompanhar até o último em NY. Há duas coleções estou amando os tecidos exclusivos, a técnica de alfaiataria e a nobreza da Berluti, que hoje, ainda capitaneada pela Dona Olga Berluti, está sob o guarda-chuva do LVMH.

Meus favoritos há muito são Prada, Dries Van Noten e Burberry (Christopher Bailey). Estes eu acompanho desde as primeiras coleções masculinas. Venero Rei Kawakubo e Yohji Yamamoto, embora às vezes acho que estejam sacaneando a nós, ocidentais, mas resolvi que é amor eterno e zen. Dos novos, amo a Duckie Brown e babo pelo reposicionamento da J Crew (vi de perto). Do fast fashion, H&M sempre, para cuecas, meias, pulls usáveis no Brasil, em ritmo fast usa fast se acaba fast joga fora e fast compre de novo. A Top Man me surpreende a cada coleção assim como a Renner por aqui. Admiro o upgrade e estilo que a Gant trouxe para o Brazilian preppie boy.

BK – Como você acha que os brasileiros se vestem?

LR – Acho covardia meter o pau no homem brasuca, que há pouquissimo tempo (no máximo 5 anos com muita força na web) está tendo a oportunidade de ter contato com a informação de moda, sem ser chamado de viado. Na minha última viagem a São Paulo, para gravar o Mais Você – importante – falando de moda masculina para um publico mega diversificado, no banheiro de Congonhas vi 3 homens (super mal vestidos) discutindo frente ao espelho como se faz o nó da gravata. Isso é novo. Imagem conta, garante o emprego. Entendo o esforço e exposição dos caras. Eles mega merecem uma indulgência de nossa parte.

A moda nasceu na Europa. Somente depois da Primeira Guerra, os americanos, que não foram afetados pelo conflito, começaram a ser olhados pelo Velho Continente como trend-setters. O visual do Great Gatsby, só rola nos anos 20. Agora está chegando a nossa vez. Temos brasileiros elegantíssimos, assim como existem italianos, franceses e ingleses – o tripé da elegância masculina – cafonérrimos.

BK – Qual a sua dica de estilo para o homem sair da mesmice ao se vestir?

LR – Please, em termos de moda, não acredite no slogan, “seja você mesmo”. Porque se você tiver mal gosto e não for o mínimo possível humilde para pedir ajuda de verdade, continuará sendo motivo de chacota, até daqueles que te sugeriram ficar na sua. E, pior, sempre nas suas costas. Seja homem! Vá à luta, peça ajuda, seja um daqueles no banheiro de Congonhas, mas aprenda a dar o nó de gravata correto.

Depois acerte as arestas. Cresça com o básico. Quando se garantir o sufuciente ouse. Se os amigos debocharem e você estiver seguro, esteja certo de que eles – na boa – estão é morrendo de inveja da sua coragem em ser “un homme de qualité”. Era assim como eram chamados os caras que tinha estilo na Versailles de Luis XIV, que inventou o salto alto, usava peruca, dava pinta e tinha pinta no make up e fez a Europe de seu tempo, o copiar. Hoje em dia, estilo é algo que se depura. Um dia houve homens que nasceram com tal dom. Mas, eles não tinham 100 megas de web – rsrsrs – e nem a paciência de vocês para chegar até aqui, nesta entrevista quilométrica. Valeu, Kadu e seu “respeitável público” por abrir este espaço para que possamos mais e mais botar a boca no mundo, pelo homem, sua moda e seus modos.

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7 Comentários:
  1. gibram alziro simões

    Gente o q é isso, o homem é uma assumidade no que se refere a cultura do universo fashion masculino.

  2. Elquer

    Que máximo Kadu. Incrível ! Amei a última resposta. Lula Rodrigues é muito inspirador !

  3. Flavio Lotufo

    Sem dúvida, Lula Rodrigues É o JORNALISTA que dá voz à Moda Masculina e que parece já está fazendo escola, não é mesmo Kadu? Parabéns pela entrevista!

    • Kadu Dantas

      Olá Flávio, ele é uma pessoa sensacional! Muito obrigado… Abraço!

  4. Bernard Araújo

    Entrevista riquíssima em referências, culturais e comercias.
    Parabéns aos dois!